Foto: Celso Oliveira (todos os direitos registrados)Naquele vão de chão as pessoas tinham o hábito de voar. Hoje se arrastam. Estão pesadas demais com suas tecnologias e políticas, corretas, quiçá justas. Mas o que mais lhes pesa é o sorriso. Para convencerem das alegrias que não têm, escondem rios de lágrimas empedradas na garganta da alma. Temem muito serem pegas desprevenidas, fazendo figas, planejando fugas, roubando frutos melhores, sempre proibidos. Quanta fragilidade travestida de dogmas e mitos. Outro dia a menina me pediu: fale de coisas leves. Sentia-se sozinha, pois acometida de uma doença e estava obrigada a ficar isolada de todos. Não agradeceu a providência oportuna. Está insuportável aqui, me disse. Sinto um vazio. Preciso arranjar um marido, tomar umas, trabalhar... A menina nunca tinha estado sozinha em sua única companhia. E, insistente, repetia: conta-me coisas leves. Quem dera soubesse a menina do peso Kundera, quem dera. De certo que seria alegre, sorriria com menos alarde, pois não gargalhamos às manhãs discretas e plenas de deuses e auroras, muito menos às tardes que decantam em ritmo de prece e alma. A luz do dia não pede volumes, apitos, adereços e apetrechos como óculos escuros de marca para não revelar marcas da alma. Essa luz tão somente clama pela honestidade que é a transparência para com o mundo inteiro. Não há desertos na alma. Tampouco há miragens. O seu mundo amigo, amiga, carrega mais que bilhões de seres e é preciso força e fé além da razão para evitar certos conflitos interiores. Há espaço que baste para todos conviverem em paz. Uns desses seres podem não parecer lá muito bonitos, mas isso é a força da ilusão dessa estética em voga que vaga no vácuo dos equívocos. Todos são belos porque todos são seres e, sendo seres, são divinos. Nesse aeroplano que é o corpo é bom que não se leve bagagens demais. De que servirão se aterrisarmos no verdadeiro mar da vida? Basta que se leve as vontades, os sonhos, vela propulsora dos vôos altos. A menina triste não me deu muito ouvidos. Logo que recuperou a aparente saúde, foi ter com os aparentes amigos nas festas. A menina fugiu e se diz conhecedora de poetas e poesias. Sendo assim, deixo-lhe o Chico, tão cantado e tão pouco ouvido: “Bebeu e soluçou como se fosse máquina. Dançou e gargalhou como se fosse o próximo...”. Levou o sorriso guardado de noites. Foi ser outro alguém mais feliz que não ela mesma.


