sexta-feira, 21 de agosto de 2009

Campo de pouso

Foto: Celso Oliveira (todos os direitos registrados)

Naquele vão de chão as pessoas tinham o hábito de voar. Hoje se arrastam. Estão pesadas demais com suas tecnologias e políticas, corretas, quiçá justas. Mas o que mais lhes pesa é o sorriso. Para convencerem das alegrias que não têm, escondem rios de lágrimas empedradas na garganta da alma. Temem muito serem pegas desprevenidas, fazendo figas, planejando fugas, roubando frutos melhores, sempre proibidos. Quanta fragilidade travestida de dogmas e mitos. Outro dia a menina me pediu: fale de coisas leves. Sentia-se sozinha, pois acometida de uma doença e estava obrigada a ficar isolada de todos. Não agradeceu a providência oportuna. Está insuportável aqui, me disse. Sinto um vazio. Preciso arranjar um marido, tomar umas, trabalhar... A menina nunca tinha estado sozinha em sua única companhia. E, insistente, repetia: conta-me coisas leves. Quem dera soubesse a menina do peso Kundera, quem dera. De certo que seria alegre, sorriria com menos alarde, pois não gargalhamos às manhãs discretas e plenas de deuses e auroras, muito menos às tardes que decantam em ritmo de prece e alma. A luz do dia não pede volumes, apitos, adereços e apetrechos como óculos escuros de marca para não revelar marcas da alma. Essa luz tão somente clama pela honestidade que é a transparência para com o mundo inteiro. Não há desertos na alma. Tampouco há miragens. O seu mundo amigo, amiga, carrega mais que bilhões de seres e é preciso força e fé além da razão para evitar certos conflitos interiores. Há espaço que baste para todos conviverem em paz. Uns desses seres podem não parecer lá muito bonitos, mas isso é a força da ilusão dessa estética em voga que vaga no vácuo dos equívocos. Todos são belos porque todos são seres e, sendo seres, são divinos. Nesse aeroplano que é o corpo é bom que não se leve bagagens demais. De que servirão se aterrisarmos no verdadeiro mar da vida? Basta que se leve as vontades, os sonhos, vela propulsora dos vôos altos. A menina triste não me deu muito ouvidos. Logo que recuperou a aparente saúde, foi ter com os aparentes amigos nas festas. A menina fugiu e se diz conhecedora de poetas e poesias. Sendo assim, deixo-lhe o Chico, tão cantado e tão pouco ouvido: “Bebeu e soluçou como se fosse máquina. Dançou e gargalhou como se fosse o próximo...”. Levou o sorriso guardado de noites. Foi ser outro alguém mais feliz que não ela mesma.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

In memorian de menina

Foto: Celso Oliveira (todos os direitos registrados)

Ontem, a menina foi levada. Terá sido levada a ponto de lhe proibirem mais recreio? Que dizer às filhas que não teve, mas esperavam lindas no ventre das juras de amor não cumpridas? Elas, as filhas, brincam na inocência dos sentimentos e são velhas por isso. Quando lhes pergunto da mãe que partiu, me respondem em uníssono: foi morar com Deus, tio. A gente dava muito trabalho para ela. Estava cansada e dormiu. Nosso pai deu providência de não vê-la mais tão bonita. Papai a amava demais e tamanho amor o estava matando dia-a-dia. A beleza dela o fazia se sentir mais feio e sozinho do que era. Papai vivia preso na imensidão de liberdade que é amar além de si mesmo. Não suportou a perda da covardia. Agora, está livre. Vive atrás das grades do delírio. Ele não nos visita. Mamãe vem toda noite e deita na nossa cama e canta as mesmas cantigas tristes que lhe cantava sua mãe e a mãe de sua mãe e assim por diante. Melhor dizendo, e assim por detrás, na memória menina. Uma mulher, desde nova, sofre a idade dos milênios nas costas de sua sina. Papai é macho, como ele gosta de dizer coma voz treinada em mentir coragem. Papai é fraco. Mandou mamãe para o céu e chora. Ora por sua ausência. Reza pelo milagre do esquecimento, do perdão. As filhas se voltam umas às outras e dão com as mãos ao primeiro que lhe trouxer doces palavras e, por serem crianças e meninas, sabem ser filhas do destino. Órfãos são os pais que se desentendem no carinho. Não vivem bem com suas infâncias. O amor quando livre e sempre em construção, goza de erros e enganos, tem o direito de ir e voltar, até aprender a não ama-durecer em demasia. Deve ser sempre colhido no broto dos olhares. O amor não termina com um sim na porta da igreja das promessas. O amor começa com um sim e leva o tempo do fruto que fertiliza tudo, ainda que caído no chão árido do esquecimento. A fidelidade das paixões humanas é um abismo. Deve-se aprender a casar palavras sem se prender a um único sentido. Orgulhos, ciúmes e toda espécie de veneno mais adulto e mais letal, portanto. Ontem, a menina foi levada para longe do amor do homem, cada vez mais distante. As tais meninas brincam eternamente a esperar pela candura da mãe, na beira da estrada que beira o nada na encruzilhada do egoísmo. As meninas são tão levadas, que lindas. Por quanto tempo ainda padecerão por isso?

domingo, 16 de agosto de 2009

Natureza Líquida

Foto: Celso Oliveira (todos os direitos registrados)

Ela e toda a humanidade dançavam por qualquer motivo. Não existia tempo ruim. Aliás, quanto pior, melhor que se dançasse. Intempéries de ventos, chuvas, secas, noites, dias, sóis e luas. Tudo era sorte. O viver era sublinhado por sagradas trilhas sonoras e coreografias mundanas, mais sagradas ainda. Nascimentos, nupcias, lutos e lutas. Os deuses eram mais alegres, não tinham crescido tanto, não eram adultos, não blasfemavam contra a sua gente. Não estavam presos em suas superioridades isoladoras. Ela ainda dança e a chamam de louca por isso. De tanta pressa, eles se tornaram presas do tempo que falta. Pobre do homem que disse que tempo é dinheiro. Quanta estupidez. Dinheiro é o passatempo dos infelizes. E o tempo não é nada. Se fosse algo não seria o tempo. Já o teriam destruído. Seria qualquer coisa que se mede como uma fotografia aos que a vêem como fosse um aquário de um sentimento que não se verteu até a última gota. Aquela mulher não se sabe. Cumpre sem culpas a sua missão de fazer companhia à musica que traz no ventre. Coisa tão natural quanto a fome para uma criança de colo. Ela é sujeito e objeto direto do próprio verbo. Adjetiva a existência como ênfase de poetas. Sem vergonha nem predicados, abre os braços, enche os pulmões e chora. Quanta alegria reclamar o leite derramado. Ela chora somente para ver sua mãezinha a sorrir para ela. E não é também pelo sorriso recebido. É pelo milagre de fazer sua mãe esquecer um pouco de si mesma. Esquecer que é mulher de um homem, ainda que viúva ou mesmo virgem. Está maculada de desejos inomináveis. Dizem-lhe santa porque é melhor que ela não se dispa. Sua nudez só provocaria mais guerras. E não é sua nudez provocante que incita esses horrores. É que os homens precisam de guerras para se sentirem em paz. Eles se prontificam de frente para os espelhos e camuflados se convencem do inimigo que lhes mora no íntimo. Homens não são homens se não forem outros homens que não eles. Daí que gritam: independência ou morte. Não dançam, vestem-se de armaduras, esquifes. Onde andará aquele homem simples, de pés descalços, falar baixo, olhar manso e braços abertos? Pensando bem, ele se assemelha a essa mulher que baila. Fluida como um rio.

Fisiologia do silêncio

Foto: Celso Oliveira (todos os direitos registrados)

Foi por ali que tudo escorregou às profundezas. Os homens de gravata pranteavam as pratas em cintilantes deslizes, sangrando na ribanceira dos olhos, escapando, literalmente, pelo ladrão. Estamos pobres diziam, é a crise, é a crise. Não durou muito e o resto do mundo durou o tempo de dois suspiros e um bocejo. Coitado, mal teve tempo de dormir tranquilo com o cheiro da mãe ao lado. Velemos. Chegou a justiça que não tarda, dizem que divina: todos no mesmo buraco. Fui expulso de tal paraíso. Aqui nada vive mais que o ar, eternamente condicionado pelo passado e quando passa cuida de não mexer com as folhas, entre uma vida e outra, nenhuma avenida atravessa correndo pelo caminho, nem vento, nem brisa. Quando se grita, toma-se antes o devido cuidado de não causar movimentos desnecessários. Cava-se mais fundo a terra, enfia-se a cabeça até a altura do pescoço, come-se dois punhados de areia e, finalmente, se berra. A terra treme um pouco, de maneira tênue, graças a areia, conhecimento ancestral que não se transmitiu de geração em geração. Nada se gera. Nada, muito menos ação. Esses barulhos mudos vão se sedimentando pelo tubo que leva ao outro extremo. À medida que se acumulam, os primeiros, logicamente, também serão os primeiros a serem lançados no espaço. O silencio suspira aliviado como fosse esse fosso seu cu cagando para humanidade. O cu do mundo. O cheiro volta para a gente, baila em voltas dos nossos corpos e deita sobre finíssimos filamentos, sensores da qualidade do raro efeito. De tão acostumados, já não se sente o odor. O barulho, como disse, não provoca mechimentos, rebuliços, alvoroços, desvios de qualquer espécie. Soube que esses gritos vão longe e com a raiva com que foram expelidos, provocam grandes estragos, catástrofes em outras partes, tempestades e abalos sísmicos. Aqui não suscitam alterações. Nem lamúrias, nem alegrias vãs. Os olhos meditam fixos o acidente do ocidente sem orientação e norte. Voltam para onde nunca saíram, o interior. Os cílios deram com as mãos às pálpebras que se amarraram aos fios dos cabelos, tão longos a ponto de não se saber se nascem dos pés. Tudo repousa e flui como uma cachoeira pintada nas paredes das casas de beira de estrada. Não se chama por ninguém. Todos sabem os seus devidos lugares. E por saberem, não poderiam ser outros os seus lugares, além dos sítios em que se encontram. E daí que sempre se encontram, não sofrem de impermanêcias. Aqui tudo é, não existe espera, não é dado perder tempo contando-se horas, minutos, segundos. Ainda que se permitisse, de nada adiantaria, atrasaria tampouco. Não desinventamos o todo, as unidades sequer foram sonhadas. Tudo vívido como as pedras que fingem alguma morte para não serem incomodadas. Existir precisa de muito egoísmo ou nenhum porque a inconsciência de ser torna tudo mais prazeroso. Outra vez, escutei um pensamento a me dizer que o tempo não pára ou podia ser que fosse: o tempo, não. Pára! Essa imobilidade anda longe de ser estática.